O Trompetista no País das Maravilhas

O Trompetista no País das Maravilhas – O Mito da Respiração Diafragmática

Interesso-me (e me incomodo) muito pelos mitos, superstições e preconceitos que pairam sobre a prática do trompete. Não pensem que os trompetistas, mesmo os bons, são constituídos apenas de conceitos bem fundamentados e atentam exclusivamente em produzir e apreciar música (som). Fábulas, lendas e visões distorcidas passam de geração em geração e se ampliam no imaginário coletivo dessas entidades.

A crença musical dos músicos em geral e do trompetista em particular, também pode incluir uma construção mental de algo idealizado, sem comprovação prática. Itens como embocadura, marcas e tamanho de bocais, marcas de instrumentos, tessitura e afins, povoam o mundo encantado como fabulações imprecisas. Lábio, dentes, língua, garganta, diafragma são os seres maravilhosos que aparecem mais constantemente em versões romanceadas, histórias fantasiosas, crendices, ladainhas e lengalengas.

Heróis e vilões são criados à partir de conceitos e histórias que carecem comprovação. Se fulano usa o instrumento tal, é assim; se colocam o bocal naquela posição, é assado.

Filho da união de um deus ou uma deusa com um ser humano, o trompetista-semideus será notabilizado por seus feitos guerreiros usando três poderes básicos: “Maisalto”, “Maisagudo”, “Maisrápido”.

Muitas vezes o pedigree do sujeito nos influencia mais que o seu som. “Quem é seu professor, em que escola estudou, em que grupo toca?”. Por essa razão os examinadores fazem avaliações de candidatos para (boas) orquestras com uma tela como tapume, impedindo de verem quem toca. Motivo: para não serem influenciados por nada exceto o som.

Somos influenciados pela postura do executante, pela maneira que segura o instrumento, pela cor da pele da face quando toca, pela marca do seu equipamento, pelo seu professor, pela visão que nossos amigos têm dele e até pelo seu sexo. Bem-vindos ao clube!

Bem, é sempre complicado abandonar os velhos paradigmas. Mas em certo ponto da nossa caminhada do trompete, os mitos devem perder sua posição. Sobre o diafragma, por exemplo, qual trompetista não ouviu sobre a estranha prática na qual se exercita com uma pilha de livros sobre a barriga para fortalecê-lo? No mínimo, quem ainda não foi exortado com a frase “respire pelo diafragma”?

Com experiências científicas usando raios-X, Claude Gordon provou há mais de 40 anos que a tão chamada “teoria da respiração diafragmática” é um conceito errôneo. O Dr. Larry Miller que conduziu a experiência, deu várias palestras com o tema The Diaphragmatic Breathing Fallacy.

Quem ainda não teve a chance ainda de ler a boa literatura desse mestre da pedagogia do nosso instrumento, o Claude Gordon, não perca a chance. Recomendo todos os seus livros, particularmente o Physical Approach to Elementary Brass Playing and Daily Routines, Brass Playing is no Harder Than Deep Breathing e ainda Systematic Approach to Daily Practice.

Há várias escolas de pensamento, mas ponderemos que Herbert Clarke, Jean-Baptiste Arban, Louis Maggio, Max Schlossberg, Claude Gordon e todos os outros grandes pedagogos do trompete não mencionaram diafragma em seus métodos, mas enfatizaram a respiração profunda, inalando generosas quantidades de ar para o único lugar possível ao ser humano – o pulmão. Então, ao tocar trompete:

Boa postura com o peito erguido pleno de ar. Sem nunca pensar diafragma.

 Abdalan da Gama

5 respostas para O Trompetista no País das Maravilhas

  1. Ramon Goulart disse:

    Como assim? não respirar pelo diafrágma? todos os meus professores exigiam isto, soprar papel na parede. etc…

    • O diafragma (assim, sem acento), está envolvido no processo de respiração, mas não pode ser controlado deliberadamente. “Respirar pelo diafragma”, em sentido estrito, é um absurdo para qualquer um que conheça anatomia, a menos que seja apenas uma metáfora para “respiração profunda”. O argumento “soprar papel na parede” não fala nada se é o diafragma o protagonista do processo. Progresso continuado do trompete, Ramon Goulart.

  2. Bruno Schuch disse:

    Muito esclarecedor e oportuno para mim. Sempre toquei em apartamento para as paredes. Recentemente experimentei tocar em carnaval de rua para ganhar experiência. Foi fantástico! Mas fiquei surpreso ao perceber que não tinha potência alguma. Em comparação com os demais trompetistas, meu som era baixíssimo e não conseguia fazer ele sair alto ‘rasgando’. Desde então estou numa frenesi pra tentar desenvolver a respiração pelo reiterado ‘diafragma’, que as vezes me deixa louco. Bom saber que isso pode ser uma besteira. No mínimo vou deixar de preocupar um pouco depois deste artigo!

    • Obrigado pelo comentário, amigo Bruno. Depois nos conte um pouco mais sobre sua experiência em tocar no carnaval de rua — que certamente é interessantíssima.
      Sobre potência: evidentemente temos que estudar também isso; por outro lado, nem sempre nossa impressão de que não temos “potência alguma” é completamente precisa: a campana está voltada para outro lado e talvez os outros estejam recebendo mais volume de som que você mesmo. Penso, contudo, que respirar bem seja o segredo (dê uma lida nos exercícios de respiração). Agora, cá entre nós, deixar de se preocupar (tanto) é sempre um bom caminho, não?
      Bom progresso no trompete e muita diversão ao tocar!

  3. edvaldo. disse:

    Ola Abdalan. edvaldo. Adoro suas dicas.Em relação ao diafragma, Clark refere-se a tocar sussurrando, realmente é bom. Quando toco e aperto o abdome percebo que meu som ganha harmônicos isso tem haver com diafragma pergunto:. e os cantores líricos, corais por que usa técnicas como se fosse um cachorro respirando. evitando assim usar a garganta. se pegarmos uma bola de festa e criar aquele ruído naturalmente ela murcha e diminuem sua intensidade. se apertarmos no funda da mesma controlando sua saída cria outra sonoridade rica e densa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s